A Espiritualidade da Autonomia
- Liszy Darc
- 21 de nov. de 2025
- 9 min de leitura
Atualizado: 23 de nov. de 2025
Espiritualidade é a capacidade humana de se entender para além do corpo material e, assim, acessar uma compreensão mais holística da realidade. Desde as épocas mais remotas, a humanidade manifesta inteligência através das inspirações além-corpo, seja através do fogo que "foi enviado do céu" pela Divindade do Raio, seja pelas estatuetas das Vênus Esteatopigias nas civilizações da Deusa, a Magia dos registros das Pinturas Rupestres ou resquícios de ritos fúnebres... todas as civilizações humanas se caracterizaram, em algum momento, por uma espiritualidade livre, natural e AUTÔNOMA, rumando o bem viver, longe dos mecanismos de controle da religião.

Por que eu não tenho religião?
Começo afirmando que sou grata por cada tradição pela qual passei: a Igreja Católica Apostólica Romana, o Evangelismo, o Espiritismo, a Bruxaria Moderna (Wicca), a Umbanda, o Candomblé e o Santo Daime foram escolas de estudo essenciais para formar quem eu sou hoje. Mas então: por que eu escolho a selvagem espiritualidade da autonomia ao invés de estar nesses espaços civilizatórios?
"Civilizar-me é expulsar-me de mim" (Clarice Lispector) - sou médium de nascença, a espiritualidade me veio sem nenhum intermédio encarnado e, portanto, nunca me enquadrei nas religiões (mesmo quando quis!);
"Se alguém precisa de religião para ser bom, a pessoa não é boa, é um cão adestrado." (Chagdud Tulku Rinpoche). A Religião foi criada como projeto de estado (diferentemente da espiritualidade espontânea dos povos ancestrais), portanto, tem papel majoritariamente moral, utilizando da fé como caminho para impor "bons costumes", hierarquias, controle social e mecanismos de poder;
"Religião é para aqueles que têm medo de ir para o inferno. Espiritualidade é para aqueles que já estiveram lá." - (Vine Deloria Jr.). Depois de muitos processos no mundo além-matéria e de estudos intensos a respeito do mundo espiritual, da filosofia e do ocultismo, sinceramente não restam muitas razões para buscar validação e pertencimento em templos de concreto - muito do que buscamos do "céu" é conseguido aqui na terra mesmo, simplesmente trabalhando a autoconsciência.
"Deus" como o "pai tirano" está se aposentando para que a Deusa Mãe tome seu devido lugar ao seu lado, em perfeito amor
Depois de recorrentes escândalos e abusos por convicções "religiosas", como a escravidão no Egito (no Brasil e no mundo), as perseguições dos hebreus durante o Império Romano, a Inquisição na Idade Média e tantas outras Guerras "Santas" onde líderes espirituais confundem elevação espiritual com um ego destrutivo, abusivo e narcísico, já há consentimentos de que no futuro não teremos mais religiões. Foi Nietzsche quem sabiamente prenunciou "Deus está morto", não como mero ateísmo pretensioso, mas pela convicção de que, com os avanços do acesso ao conhecimento e tecnologia, só ficariam nas sombras da alienação religiosa fanática aqueles que se distanciassem do mundo de forma a construir isolamentos pitorescos de ignorância e retrocesso autodestrutivos.
Pontos Importantes:
Não tenho nada contra as religiões e não generalizo minhas afirmações, apenas não possuo identificação com tradições específicas e aqui exponho minhas razões;
As religiões foram (e ainda são) alicerces importantes para grande parte da sociedade - o fato é que, conforme a consciência humana conseguir ver-se autônoma de valores externos, poderemos viver naturalmente em harmonia, sem um sistema fechado de crenças para nos dizer quem somos;
Fatos históricos não rebatem-se com opiniões: assim como é histórico as guerras religiosas, é histórico o movimento ecumênico e sincrético presente entre as religiões contemporâneas, anunciando o movimento final que seria a prática da fé humana sem as divisões sociais limitantes. Torna-se cada vez mais comum as pessoas se dizerem batizadas, mas "não praticantes" de uma religião.
Diz-se que, antes do patriarcado (sistema político que considera a figura do homem como central nas sociedades), haviam as Civilizações da Grande Mãe, onde mulheres exerciam o poder político-religioso em harmonia com homens e outras mulheres, com a natureza e os demais seres, pois é a mulher a conhecedora do dom da vida e do amor genuíno, bem como dos mistérios espirituais mais profundos. A Força Feminina é a polaridade equilibradora, integradora e pacificadora. Seu corpo é portal entre vida e morte, sua natureza é sensível e guerreira, se preciso, mas nunca violenta por competição, por inflexível racionalização ou desejo de posse e domínio desenfreado (como na Força Masculina). Portanto, penso eu que já obtivemos a contribuição necessária da tecnologia, do trabalho e da ciência masculina - eis que estamos no tempo do Retorno da Deusa!
"O futuro é ancestral"
Ao mesmo tempo, as culturas ancestrais indígenas e suas medicinas da floresta estão em plena ascensão, trazendo curas conscienciais e espirituais jamais vistas na medicina "tradicional" e ressignificando a relação do ser humano com sua própria natureza e a natureza ao seu redor.
1. A Natureza é Sagrada
Por séculos, corpo e espírito foram separados em "profano" e "santo" pelo cristianismo, nos levando a uma desconexão da matéria, do amor ao próprio corpo, da naturalidade sexual, da presença fora das teorias platônicas que ainda hoje se traduzem nas doenças da alma: mesmo não-religiosos sofrem com um mental desregulado, a sombra do "pecado original", perdendo o sentido de viver, a libido, o prazer e todos os rituais santos que hoje se distorceram em hábitos entorpecedores banais (álcool, cigarro, cannabis, entre outras medicinas sagradas deturpadas).
Para os povos originários, nós não somos superiores à natureza: a matéria do corpo, a árvore na terra, o animal no campo, o sol, a chuva, o rio... tudo ao nosso redor é tão sagrado e essencial quanto a alma humana;
Somos parte dessa criação divina: a cosmovisão que integra matéria e espírito acaba com agonias inúteis, divisões infundadas e contradições que mais serviram para confundir a humanidade do que para lhe permitir contemplar a verdade - não somos melhores ou mais importantes que nenhum ser nesse planeta, precisamos de todos!
Experiências com as medicinas curam: para internalizar tamanha sabedoria, somente experienciando com estes povos e aprendendo de sua cosmovisão e saberes ancestrais para que possamos começar o retorno à nossa essência, nossa espiritualidade autônoma e comunitariamente amorosa, curando-nos das doenças da mente, da alma e do coração.
2. Somos Natureza
Na cosmovisão wiccaniana tradicional (bruxaria moderna), a Lei Hermética da Polaridade se faz presente na concepção do Divino como Deusa e Deus - dois pólos da divindade manifestados nesse plano para nos ensinar o equilíbrio necessário. Em sua teologia, o(a) Criador(a) é tanto Imanente (presente em tudo ao nosso redor) quanto Transcendente (uma força muito maior do que a compreensão humana possa abarcar). Em religiões de Axé, como a Umbanda, o Divino é tão múltiplo quanto a própria natureza: há Orixás masculinos e femininos, representando as forças ancestrais da natureza que correspondem também a nós, seres humanos. Rituais com ervas, flores, frutos, cores e incensos só vêm reafirmar a importância fundamental dos elementos naturais dentro de ambas as tradições.
Visão que agrega ao invés de apartar: a habilidade de sistematizar tudo em "caixinhas" presente em séculos de patriarcado e cristianismo impostos, vem da teologia tradicional transcendental e masculina - Deus é absoluto, tirano, julgador e punidor. O bem em oposição ao mal, a verdade em oposição a mentira. Essa visão maniqueísta é responsável por uma organização social que gera divisões (classes sociais), opressão, preconceitos e exclusões, mas é chegado o tempo em que o equilíbrio das polaridades se estabelece;
O Retorno da Deusa: o movimento feminista, a Nova Era e os movimentos do Sagrado Feminino a partir da Wicca (com os chamados "Círculo de Mulheres"), trouxeram uma releitura das tradições pagãs (de "pagão", morador do campo) que incluem a polaridade feminina na concepção de Sagrado, isto é, a força amorosa, maternal, geradora e agregadora das tradições ancestrais que viviam em harmonia com a natureza, seus ciclos e seres;
Emergência sustentável: a importância dessa concepção vai além do âmbito religioso, uma vez que a contemporaneidade já apresenta estudos científicos que comprovam a necessidade de um olhar mais cuidadoso para a natureza - o "homem" não pode ser mais aquele "escolhido por Deus" para subjugar e explorar a terra sem escrúpulos. Nosso planeta (a Mãe Terra) pede socorro e o respeito inerente à vida em todas as suas formas. Diante de tantos desastres ambientais, do aquecimento global, da extinção de espécies, do iminente esgotamento de recursos; frutos estes da industrialização e do consumismo desenfreado do sistema capitalista; conferências e órgãos internacionais mobilizam um movimento de preservação da natureza, o qual depende da conscientização global de governos, empresas e cidadãos.
3. O Desenvolvimento Sustentável
São os povos originários os verdadeiros professores da sustentabilidade: presentes desde tempos imemoráveis, vivem, sobrevivem e resistem nesta terra em harmonia, respeitando seus seres e recursos sem os problemas catastróficos do processo civilizatório e industrial moderno.
(Re)sacralizando a Natureza: independentemente de crenças religiosas, há o consenso de que a preservação da vida é sagrada em todas as suas manifestações - sem água, ar, terra, árvores, animais... a vida humana não é possível. Portanto, sim: a natureza é sagrada. Se a conscientização global ainda não foi efetivada, é em razão dessa desconexão da ancestralidade humana, pois todos nós originamos de nativos que viviam com reverência pela natureza, integrando o sagrado e o científico, o racional e o espiritual, o transcendente e o imanente;
A Ciência da Natureza: nos antigos calendários, o tempo era cíclico em respeito às estações do ano, ao caminho das estrelas no céu, às voltas do sol e da lua. O tempo do progresso, da ciência e da visão racional-linear masculina nos colocou num tempo de cansaço, trabalho desenfreado, ganância e competição sobre a qual só "ganha" os grandes empresários e políticos, sob o preço de extinguir a paz, a saúde e até mesmo a vida na terra;
Naturalmente retornando: o Retorno da Deusa, da Mãe Terra, da Polaridade Feminina não é simplesmente uma visão pessoal e teórica sobre a realidade. Pós 2ª Guerra Mundial, lideranças mundiais se obrigaram a reconhecer o valor da vida, tendo os "Direitos Humanos" declarados pela ONU apenas como primeiro passo. Os direitos não podem ser somente da humanidade, se a humanidade também é natureza, é a água que bebe, é o fruto que come da terra, é a carne que consome dos animais, é a respiração das árvores. Por isso, naturalmente retornamos à concepção ancestral das Civilizações da Deusa: precisamos da reconexão com a terra, com a amorosidade de filhos que cuidam de sua mãe nutridora, com o respeito e reconhecimento de todos os seres como irmãos com os quais compartilhamos a existência em equidade.
Como tudo isso dialoga com a Espiritualidade da Autonomia?
Ser autônomo para pensar a vida é o grande feito de todos os grandes líderes da humanidade: Hermes, Cleópatra, Sócrates, Jesus, Budha, Joana D'arc, Helena Blavatsky, Simone Weil, Lou Andreas-Solomé, Carolina de Jesus, Maria Quitéria... o que todos estes (e muitos outros) têm em comum é a capacidade genuína de pensar a vida de forma autêntica, independente dos estigmas sociais e convenções estabelecidas. Hoje me considero ESPIRITUALISTA: não espírita, não umbandista, não cristã. E não por ter algo contra as religiões, mas sim como resposta necessária à minha natureza de alma que respira o novo tempo que vai chegar. O nome "Bruxa Liszy" é um apelido carinhoso que rememora o início da minha jornada, os saberes da Wicca e o histórico das grandes mulheres que me inspiram: todas "queimadas" na fogueira por sua forma ímpar, atípica, independente, poderosa, inteligente e mística de ocupar um lugar no mundo.
1. O Estudo Autônomo
O meu estudo espiritual é empírico e pluriversal - aprendo através das experiências e vivências e busco nos livros ocultistas, religiosos, filosóficos e científicos das mais diversas vertentes, as rimas conceituais que me fazem sentido em um todo que integro tanto racional quanto intuitivamente.
2. A Experiência Espiritual
Para mim, não importa muito se você é religioso ou não: a fé vem da experiência que acontece quando só você está vendo - e QUALQUER pessoa pode viver isso em algum momento de sua vida e entender como é mágico. Quem nunca teve uma experiência que beirou o sobrenatural? Quem nunca viveu "coincidências" (sincronicidades)? Quem já foi capaz de pedir aos Deuses e ter a sua realidade alterada? Pode ser que você tenha que buscar, estudar, frequentar a umbanda, o espiritismo ou a wicca para sentir essa conexão. Pode ser que você se dê a preciosa oportunidade de consagrar as medicinas da floresta em algum momento para então entender do que é que estou falando. Mas para mim, não há nada como sentir e observar o que realmente vivo para dar sentido à minha realidade: isso é a espiritualidade!
3. A Integração e Expansão
Após 2013, quando meu chamado espiritual começou, fui intuitivamente por caminhos tortuosos para então chegar aonde estou hoje. Dificilmente alguém que teologiza demais a sua crença, vive sob o amparo de um(a) único(a) líder ou na religião "oficial" de sua comunidade consegue compreender o que é a Espiritualidade da Autonomia de que vivo e falo, pois estes de fato talvez não precisem dela. Entretanto, é aqui o espaço onde procuro expandir os conhecimentos adquiridos em minha caminhada para aqueles que também não se enquadram e, assim, procuram um estudo integrado na diversidade de saberes de muitos tempos distintos e de diversos lugares do mundo.
Te agradeço por chegar até aqui
Termino este post agradecendo enormemente à Força Criadora - que é Deusa e Deus, que sou Eu em expansão. E agradeço também a você por ouvir e compartilhar um pouco de quem sou e a quê eu vim. Esse é só o começo de um processo que já dura mais de 10 anos e que durará ainda mais por causa de pessoas como você, que busca sair do óbvio, do "ópio do povo" e do ego desregulado dos solitários para encontrar um caminho próprio, espontâneo e refinado pela firmeza de caráter e coração. É com muita alegria e humildade que trago a minha autêntica e sincera percepção do mundo espiritual, de forma a te convidar para estar comigo nessa descoberta infinita. Vamos juntos!




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